sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Agente não quer só comida


Os jornais de hoje noticiaram que o governo do estado e a prefeitura vão fechar 49 espaços culturais, em reação provocada pelo incêndio da boate Kiss. É obvio que, qualquer estabelecimento público tem que oferecer segurança a seus frequentadores e que aqueles que se encontram abaixo dos padrões exigidos devem sofrer as sanções previstas em lei, porém há alguns aspectos que devemos levar em conta ao analisar essa medida:
Desde 1998 tem sido prática constante dos governos carioca e fluminense a prática de acabar com os espaços públicos, principalmente aqueles destinados a atender as demandas das populações mais carentes. Ao longo dos últimos 15 anos foram fechadas escolas, hospitais, postos de saúde e parques e, aproveitando-se do ocorrido em Santa Maria, os "gestores" da coisa pública do Rio de Janeiro voltam sua sanha reducionista para os espaços culturais sendo que desses, não por acaso, os mais vitimados são exatamente as lonas culturais.
Quem conhece sabe que as lonas são importantes focos fomentadores de cultura nos subúrbios e comunidades carentes, promovendo shows de qualidade e uma série de atividades e cursos voltados para as populações de baixa renda da cidade. A interdição das mesmas acaba com os únicos espaços de lazer e cultura localizados fora das regiões centrais da cidade dificultando ainda mais o (pouco) acesso que as classes populares tem as manifestações artísticas e culturais. O governo afirma que a interdição será por apenas 20 dias, mas a história nos mostra que, findo esse prazo, os espaços localizados nas áreas nobres da cidade serão reabertos e os demais serão relegados ao mais completo abandono afinal a lógica meritocrática e venal dos nossos alcaides julgam desperdício de dinheiro investir em cultura para as camadas populares, visto que estas devem se manter em estado de brutalização e subserviência.
Outro aspecto que devemos ressaltar dessa medida é a forma de pensar irresponsável de nossos governantes. Até a queda dos prédios na Avenida Rio Branco (alguém ainda lembra disso?), não havia nenhum interesse em fiscalizar as obras e alterações realizadas nas construções da cidade; até a explosão do restaurante, ninguém se importava se haviam estoques clandestinos de gás de cozinha nesses lugares e, somente após o incêndio, vão se investigar os estabelecimentos com alvarás caçados desde 2010. Por que sempre é preciso que alguém morra para que as autoridades se movam? até quando o direito ao lucro dos poderosos vai se sobrepor ao direito a vida de todos?
Finalmente, encerro com o seguinte questionamento: Se ao invés de um boate de classe média alta, cheia de universitários, no Rio Grande do Sul o incêndio tivesse ocorrido em um Baile Funk no complexo do alemão, frequentado pelas camadas populares, a mídia faria a mesma cobertura do fato? a tragédia teria comovido o Brasil da mesma forma?

Fabio Campelo é historiador

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