Qual é o problema da educação hoje em dia?
Em primeiro lugar, eu diria que a educação não tem PROBLEMA ela tem PROBLEMAS, problemas que perpassam por todos os setores que transitam pelo espaço escolar. Os responsáveis pelos problemas da educação são os gestores que insistem em mercantilizar os sistemas educacionais transformando as escolas em indústrias padronizadas regidas por metas irreais; são os alunos para quem a escola possui cada vez menos significado para além de seu aspecto social básico; são os responsáveis que não exigem dos gestores uma educação de qualidade, se contentando em ter um local onde possam depositar seus filhos cinco horas por dia; são os professores que tem cada vez menos interesse e disposição para cumprir suas obrigações enquanto educadores.
Sob qualquer aspecto que se analise, o sistema educacional está absolutamente falido. Esses são os fatos mas a pergunta que se impõe a eles é como chegamos a isso?
Eu proponho três explicações:
1) As sociedades ocidentais tem se tornado cada vez mais narcisistas. Atualmente, as pessoas tornam-se cada vez mais incapazes de enxergar qualquer coisa que não seja um reflexo distorcido delas próprias, tornando-se desinteressadas de qualquer questão que transcenda o próprio ser. Para que discutir o crescente problema dos usuários de drogas (os cracudos) se eu não sou um deles? para que apreciar arte se ela não é uma fotografia minha? Que me interessa o que político A, B ou C faz? eu voto nulo! Ich, vor allem (eu, acima de todos) é lema das novas gerações e o I-Phone apontado contra o espelho o seu brasão e sendo a escola o local onde se vai para acessar o conhecimento acumulado e sistematizado da humanidade através dos anos, ela se torna cada vez menos atraente.
2) No ocidente contemporâneo vivemos sob a égide do liberalismo publicitário que prega, acima de qualquer outra coisa, dois dogmas fundamentais: "Tenha, não seja" e "A autogratificação tem que ser imediata". Cada vez mais a sociedade impõe as novas gerações que seu valor seja medido por suas posses transformando a compra do tablet ou do celular da moda em um dilema muito mais presente do que obter justiça social em ou, em outras palavras, os jovens vão progressivamente deixando de ser revolucionários em potencial para se transformarem em consumidores vorazes. A satisfação somente é obtida através do consumo e ela tem que ser efêmera pois é preciso consumir mais, seja lá o que for (serviços, mercadorias, pessoas). O trabalho duro e a satisfação que somente é obtida em decorrência desse tornam-se, cada vez mais, obsoletos e, uma vez que a escola se baseia exatamente nesse princípio de esforço e gratificação posterior, ela se torna um estorvo massante para os jovens que se tornam francamente hostis a ela.
3) O elitismo proselitista de muitos educadores os levam a uma cegueira que os faz enxergar apenas e tão somente uma verdade, uma forma de ensinar, uma forma de agir. Quando constatam que seus métodos são ultrapassados e que sua visão é excludente, esses "educadores" passam a assumir discursos que variam do paternalismo mais asqueroso ("eu não posso ensinar minha matéria! eles não sabem nada!") a agressividade xenofóbica pura e simples ("[pobre/negro/nordestino/etc] é tudo burro! não tenho como ensinar!"). Para esses dificuldade se transforma em Empecilio e empecilio se transforma em impossibilidade e, assim, temos uma legião de educadores que seguem, ano após ano, sem cumprir com seus deveres, jogando a culpa de sua incompetência na má fé alheia.
4) A constante mercantilização dos sistemas educacionais, promovida por seus gestores. É comum atualmente a ideia que a educação deve ser gerida como um negócio porém os estudos na área já provaram por A + B sendo: a)que o aprendizado é um processo individual e subjetivo e b) que é preciso RECURSOS para se obter uma educação de qualidade. Essa duas propostas são diametralmente opostos as ideias "meritocráticas" que pretendem estabelecer metas de produtividade e redução de custos, transformando o processo todo em mera reprodução das condições postas socialmente.
5) Nunca antes, em toda a história da humanidade se glorificou tanto a violência como nos dias atuais. A violência é o ar que respiramos nas sociedades contemporâneas, a única diferença foi que substituímos a violência física de outras eras por outras variedades de violência mais sutis como o desrespeito, o preconceito, o sexismo, o proselitismo religioso e a violência moral. Enquanto microcosmo social, a escola reproduz essas práticas de violência transformando-se em um ambiente hostil para todos que a frequentam, levando os alunos a abandoná-la e degradá-la enquanto instituição e os professores aos consultórios médicos.
Esse texto foi apenas uma reflexão/desabafo de alguém que vivencia a aproximadamente 15 anos o universo escolar como educador. Não pretendo ser o profeta do caos nem a salvação do mundo corrupto, quero apenas ser aquele que ajudou a iniciar um diálogo sério e imprescindível sobre a educação em nossa sociedade.
Fábio Campelo Teixeira é professor e historiador.
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