sexta-feira, 1 de março de 2013
O Banheiro do Papa
A renúncia do Papa nos mostra que em termos de corrupção e falência da classe política, nós ainda temos muito o que aprender com nossos mestres italianos. Ao longo dos anos, alguns mitos foram criados e se somaram a aura de mistério que envolve o Vaticano em uma tentativa de lhe conferir credibilidade e isolá-lo do ambiente político italiano, historicamente marcado por vícios e defeitos que o tornam ineficiente e caricato. Uma dessas idéias é a da independência do Vaticano.
A Cidade do Vaticano é frequentemente referenciada como sendo o menor Estado do mundo, construindo a ideia que, embora seja pouco mais que um sub-bairro incrustado no meio da capital italiana, o Vaticano estaria isolado dos males da política nacional exatamente por ser outra nação. Na prática, todo o escândalo que orbita a renúncia de Bento XVI mostra que as mesmas forças que agem nas sombras do Paazzo Chigi também obscurecem a praça São Pedro.
A história nos mostra que lutas políticas, tráfico de influência e relações escusas com o crime organizado não são novidade no Vaticano. Rodrigo Bórgia (Papa Alexandre IV) gastou fortunas para comprar os votos do colégio de cardeais e garantir sua eleição, além de se utilizar de capangas e soldados mercenários para matar ou intimidar seus opositores; João XII dedicava mais tempo ao estupro de peregrinas do que a condução espiritual da santa sé. Lutero se horrorizou tanto com o que presenciou na corte de Leão X que preferiu romper com a igreja e formar sua própria religião e Pio XI ficou cego a brutalidade do Nazi Fascismo para conseguir a independência política de suas posses pessoais, criando o Estado do Vaticano. Embora esses sejam exemplos extremos, o fato é que o poder secular sempre seduziu e influenciou aqueles que, em tese, deveriam dedicar suas vidas a condução espiritual de uma parte significativa da população mundial, fazendo da cúpula da igreja um ambiente ideal para a proliferação de carreiristas ambiciosos que, não se enganem os fiéis, agiam com liberdade e o conhecimento tanto do próprio Bento XVI quanto de seu antecessor João Paulo II. A renuncia de Ratzinger não é um ato de contrição ou um grito desesperado pela decência e a moralização da instituição religiosa, é simplesmente a remoção de um elemento que não era mais útil as engrenagens obscuras do poder católico. Com sua renúncia, no entanto, Bento XVI nos mostra que é um profundo conhecedor e estudioso da história brasileira.
Em 1954, Getúlio Vargas, um dos mais populares presidentes brasileiros, não vivia seu melhor momento na política. Com denúncias de corrupção e favorecimento dentro de seu governo surgindo diariamente na grande mídia (liderada por Carlos Lacerda), Getúlio optou por "sair da vida para entrar para a história", dando um tiro a queima-roupa no peito. Com o suicídio, a população que saia as ruas para acusá-lo e pedir sua renúncia, agora lotava os funerais para homenageá-lo e honrá-lo, esquecendo todas as suas falhas políticas e pessoais.
Ao renunciar, Bento XVI conseguiu efeito político semelhante pois sua desastrosa condução da igreja nos últimos oito anos tem sido revista e revisada a luz do fato novo que ele criou com sua renúncia e, assim, o Papa antipático, conservador, elitista e com um passado relacionado ao nazismo se tornou em uma espécie de mártir, um herói que admite sua própria impotência para lidar com forças sombrias que não conhecia.
O papa emérito conduziu uma igreja que se isolou das demais religiões, sempre recusando o diálogo, defendeu posições reacionárias e elitistas e manteve-se omisso diante da enxurrada de denúncias de abusos sexuais/econômicos/políticos praticados pelos agentes católicos mundo afora. A igreja católica encolheu na última década e se distanciou tanto de seu rebanho que perdeu quase toda a sua legitimidade para falar em nome dos quase 1,28 bilhões de católicos que existem no mundo atualmente e tudo isso foi feito, se não com o beneplácito dos últimos dois vigários de Roma, com seu conhecimento e leniência. Bento XVI não é mártir ou herói, ele apenas não é mais útil.
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