Por: Thiago Monteiro Bernardo.
Não preciso afirmar que o momento é histórico. Ontem, dia 20 de junho de 2013, assistimos as maiores manifestações populares desde a redemocratização do Brasil há 25 anos. O que querem estes manifestantes? Muitos já tentaram responder. Ontem na marcha tive a clareza que a pauta era apenas uma: a indignação. Eram diversos grupos indignados com as mais diferentes causas. Havia alas de movimentos que em sua maioria marchavam e desfilavam em harmonia, saindo da Igreja da Candelária em direção a prefeitura do Rio de Janeiro. Passei pelo movimento LGBT, pelos sem teto, por punks anarquistas, por sindicatos, por partidos de esquerda. No trajeto soube que figuras de extrema direita, ainda que em minoria absoluta, também estavam presentes, mas não os vi. Eles não davam a cara do movimento que era composto em sua maioria por jovens (e não jovens adultos como eu) que nunca bradaram contra governos, nunca enfrentaram a polícia e que viviam o encantamento e o assombro de estar tomando de algum modo o controle de suas vidas políticas naquele ato. O fluxo deste enorme rio não era do golpe. Era o de buscar algum tipo novo de cidadania, uma nova política com mais transparência e maior canal de participação popular.
Traçado este perfil, chego ao meu ponto principal: espalhasse na rede principalmente entre os militantes de esquerda o terror que este movimento descambe para um golpismo. Vejo colegas militantes (a maioria deles como eu na casa dos 30 anos e com uma trajetória intelectual e de lutas razoavelmente longa) temendo que a marcha se torne uma nova TFP. Pessoas horrorizadas com o mote nacionalista dos manifestantes que gritavam “sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor”. Para eles eu digo: não temam! Vamos a luta!
Os gritos nacionalistas foi a forma como essa geração aprendeu o que era cidadania. Fiz uma reflexão sobre isso junto com alguns amigos e constatei inclusive que o hino nacional se tornou a única música que fornece algum tipo de coesão coletiva aprendida por que essa juventude, seja nas escolas, seja nos eventos esportivos. O vazio é tão grande que as canções de protesto evocadas eram as de outra juventude. Chico Buarque e Geraldo Vandre ainda são os hinos de resistência. Sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor é a chave semântica que se canta nos estádios para clamar pela superação quando algum time nacional está em dificuldades. Se isto for apropriado pela extrema direita militarista ou pelos fascistas será por que n´s deixamos ser.
Sem dúvida as manifestações evidenciam uma crise política. Os governos (mesmo os de esquerda) e os políticos não sabem como se posicionar. Era evidente a ausência deles desde o início do movimento. Os gritos sem bandeira e sem partido, que muitos viram como fascista eram na verdade de uma multidão que se cansou. Cansou de acreditar na velha política que os partidos representam e querem de algum modo algo novo, ainda que não tenham clareza de qual projeto político representaria essa novidade. Esta crise abriu um vazio político. Um vácuo ideológico. Um vazio que será preenchido no curso destas manifestações.
O PSTU, o PSOL, o PCO e demais partidos não devem atacar os manifestantes que exigem que suas bandeiras sejam abaixadas. A ação tem que ser pedagógica. Não estaria ali a chance de apresentar o que é UM partido? O que é O partido? Quais são as propostas DESTES partidos para resolver a atual crise? Como eles pretendem incorporar ou dialogar com a agenda de indignações do movimento atual? Não fazer isto é dar munição para os que gritam sem partido. Ou ainda pior, dar munições para os que gritam sem partido de modo ideológico, conclamando para uma ditadura militar.
A rua é agora o espaço de disputa política e a disputa é pedagógica. Será dali que sairão os grandes vencedores e derrotados deste momento. A multidão é disforme e poderosa mas não devem ser temida por qualquer um que tenha um projeto de sociedade ou de política, como são os partidos. Espero ver todos os colegas partidários e intelectuais juntos, construindo propostas na próxima manifestação. Temer o povo ou mesmo suas posturas mais reacionárias é a derrota para qualquer movimento que pretenda transformar esta sociedade. Façamos novas canções, que possam ser cantadas em conjunto com as mais antigas. Lancemos novas ideias pois a paciência de esperar por mais 4 anos e ver mudanças apenas superficiais já se esgotou.
Thiago Monteiro Bernardo é Historiador e ex-professor da UFRJ.
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