sexta-feira, 21 de junho de 2013

Sobre Protestos, Surdez seletiva e Violência

Por Fábio Campelo Teixeira.

Com o presente texto, não pretendo fazer nenhum tipo de pregação nem contra nem a favor dos atos de violência que tem crescido de forma exponencial nas manifestações populares que se espalham pelo Brasil, minha proposta é pura e simplesmente fazer uma reflexão a respeito das origens dessa violência, para compreendermos por que ela ocorre.
Um primeiro aspecto que me chamou atenção foi exatamente os locais onde os atos de violência tem sido mais comuns e virulentos, ou seja, no Rio de Janeiro e em São Paulo. Me parece claro que a violência das manifestações nessas duas cidades está diretamente relacionada com a forma brutal com que as elites dessas cidades (e estados) tem, historicamente, lidado com a população.
O governador do Rio de Janeiro e seu prefeito-fantoche da capital tem pautado suas administrações pelo trinômio leniência (para com os poderosos), violência (no trato com a população carente) e intransigência (ante os apelos da sociedade civil organizada). Para comprovar isso cito dois casos exemplares: a remoção de comunidades pobres e grupos excluídos para a realização das obras para a Copa do Mundo e as Olimpíadas são de uma brutalidade animalesca que poucas vezes eu vi na história recente da humanidade (é, por isso mesmo, ocultadas do grande público com o apoio da grande mídia subserviente) e a reação do governo do estado do Rio de Janeiro as legítimas mobilizações populares que vem acontecendo ao longo dos últimos 3 anos (Cabral prendeu os bombeiros grevistas, ameaçou com exonerações em massa a PM quando esta ameaçou entrar em greve e vem humilhando e assediando os professores do estado desde a última greve que durou 3 meses). Ambos demonstram claramente o viés antidemocrático, impiedoso e violento do exercício do poder no estado do Rio de Janeiro e, diante de tal situação, me parece natural que a revolta popular exploda durante as manifestações pois criou-se um sentimento que os violentos apenas ouvirão a voz da violência. Boa parte do que eu falei sobre o Rio de Janeiro é perfeitamente aplicável ao estado de São Paulo no qual, em pouco mais de 16 anos non poder, o PSDB implementou um Estado policial como poucas vezes se viu na história mundial.
Segundo. Dependendo da fonte que se consulte as versões sobre o início da violência vão variar de "os baderneiros provocaram a polícia" a "a polícia saiu atirando sem provocação". Sem entrar nos méritos sobre qual versão é mais ou menos plausível acredito que a grande questão aqui é a mesma: independente de quem começou a arruaça, a atuação da Polícia Militar do estado do Rio de Janeiro foi altamente reprovável.
Em entrevista ontem a noite, o professor da UFRJ Francisco Carlos fez uma análise impecável sobre o que ocorreu no centro do Rio de Janeiro na noite ontem ao afirmar que "o vândalo não tem preparo nenhum, ele quer simplesmente incitar a violência, mas o policial (em tese) recebe treinamento e preparo para lidar com esse tipo de situação". Permitam-me recorrer a um exemplo para deixar esse raciocínio mais claro: A polícia reagir com violência a provocação dos Vândalos é uma situação análoga a um professor que, ao ser ofendido por um aluno em sala de aula, pegar um pedaço de pau e espancá-lo até que o aluno desmaie.
Em um estado democrático de direito, SOB HIPÓTESE ALGUMA é admissível que uma força policial treinada e fortemente armada abra fogo (e, diga-se de passagem, com munição letal e não apenas balas de borracha) contra uma população civil desarmada e mobilizada e, quando essa mesma polícia começa a atirar bombas de gás contra um hospital, temos formado um quadro de terrorismo estatal digno dos pesadelos totalitários descritos por autores como George Orwell e Aldous Huxley.
Meu amigo  Thiago Monteiro Bernardo, com invejável lucidez ante os horrores ocorridos no centro do Rio ontem a noite, disse algo que define muito bem o absurdo da atuação policial ontem: "A tropa de choque deve dispersar a multidão e proteger o patrimônio público, não perseguir manifestantes como animais". Perseguir manifestantes, sitiar campus de universidades federais (o IFCS foi citiado SIM, a Escola Nacional de Direito foi bombardeada com bombas de gás SIM) são atos dignos dos momentos mais obscuros da ditadura militar e apoiar tais atos transformam nossos governantes em legítimos herdeiros do legado sangrento e antidemocrático dos regimes de Castello Branco, Costa e Silva, Garrastazu e Giesel.
Enquanto as elites continuarem insistindo em ignorar as demandas populares, enquanto os políticos insistirem e fingir que toda essa revolta não é direcionada contra eles, enquanto as respostas as manifestações continuarem sendo tímidas e hipócritas (como a suspensão do aumento mas com subsídio aos empresários), as manifestações vão continuar e, lamento informar, se tornaram progressivamente mais violentas.

Fábio Campelo é historiador.

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