No
jornal de hoje, li uma notícia a respeito do veto do governador
Sérgio Cabral Filho ao projeto aprovado em votação na ALERJ de
acordo com o qual o governo do estado seria obrigado a lotar seus
professores em uma única escola, impedindo assim o desgaste
provocado pelo deslocamento dos docentes entre várias U.E.
Diferentes, ao longo de sua carga horária diária. No veto, o fuherr
das Laranjeiras afirma que tal medida faria com que muitos
professores ficassem com “carga horária ociosa” e que isso
obrigaria a contratação de 11 mil professores, onerando o estado em
280 milhões de reais. Tanto o veto quanto sua justificativa nos
mostram revelam alguns dados importantes sobre a visão do governo do
estado a respeito da educação e seus profissionais.
Primeiro:
Ao classificar o tempo que o professor passa na escola sem ser em
regência de turma como “tempo ocioso”, o governador (e a equipe
que o assessora) demonstram ao mesmo tempo uma profunda ignorância a
respeito do cotidiano escolar (e dos estudo pedagógicos realizados
nas últimas 3 décadas) e uma filiação as doutrinas neoliberais de
mercantilização do conhecimento as quais defendem que as escolas
deveriam ser meros centros de formação de trabalhadores com baixa
qualificação. Uma infinidade de estudos comprovam que os projetos
extraclasse e a efetiva participação do professor na elaboração
das políticas pedagógicas das escolas (ambas atividades realizadas
nos momentos em que o professor está na escola mas fora da regência
de turma) são fundamentais para a efetivação tanto de uma educação
de alto nível quanto para a implementação de aulas de turno
integral, proposta inclusa nos projetos educacionais de virtualmente
todas as redes de ensino atualmente.
Esses
argumentos não são teóricos, são práticos. Colégios
reconhecidos como centros de excelência de ensino tais como o
Colégio Naval, o CEFET, o Colégio Militar, Colégio São Bento,
etc. Adotam essa filosofia, pagando pela dedicação exclusiva de
seus docentes mas ocupando apenas uma pequena parcela de sua carga
horária com regência de turma. Os resultados práticos disso são
profissionais motivados e comprometidos com a práxis escolar de seus
locais de trabalho, ao invés de formar um grupo de professores
adoentados, estressados e sobrecarregados pelas condições de
trabalho desumanas.
Segundo:
A argumentação que a contratação de 11 mil professores geraram um
impacto em folha inaceitável para as finanças estaduais demonstram
as prioridades que norteiam esse governo. Como, pergunto eu, um
investimento de 280 milhões de reais para a contratação de
professores pode ser considerado um impacto tão devastador aos
cofres públicos enquanto gastos de 1,2 bilhões de reais para a
reforma de um estádio (que foi entregue a iniciativa privada por 560
milhões a serem pagos em 30 anos) não são?
Ao longo
de seus dois mandatos Il Duce
fluminense fechou 98 escolas e investiu menos de 5% do orçamento
estadual para a educação enquanto os gastos com viagens do alto
escalão do governo triplicaram no mesmo período. Infelizmente, nada
posso falar com relação aos gastos do governo estadual com os
megaeventos pois, desde o início do ano, o governador proibiu a
divulgação desses valores para o público. Outra indicação das
prioridades do atual governo é o fato de que, nos últimos 7 anos,
os gastos com segurança pública e publicidade praticamente dobraram
enquanto os investimentos em educação permaneceram os mesmos ou, em
algumas áreas, reduziram.
O
fato é que o estado do Rio de Janeiro, segundo estado mais rico da
federação e um dos cem maiores produtores de petróleo do mundo,
tem dinheiro de sobra para contratar 11, 22 ou 33 mil professores
porém a educação nunca foi, não é e jamais será prioridade da
corja que administra nossa unidade federativa pois, pela lógica
oligárquica, atávica e canalha dessa gente, melhor que investir em
ensino e preparo para a população mais carente é gastar com
megaobras e alugueis de equipamentos (que oneram o erário sem
acrescentar nada ao patrimônio) e com a polícia para reprimir
aqueles que porventura se manifestem contra esse estado de desgoverno
e absurdo.
Terceiro:
Ao achar justo e correto que um professor tenha que se desdobrar
entre cinco ou seis escolas diferentes (muitas vezes espalhadas por
cidades diferentes), o ogro da zona sul mostra um completo descaso e
desrespeito não apenas pelos profissionais mas pelos seres humanos
que dedicam suas vidas a ingrata tarefa de construir o futuro na vã
esperança de um mundo melhor para as próximas gerações .
Mais
uma vez, o governo do estado mostra quais são seus verdeiros
interesses e para quem verdadeiramente esse estado é governado e,
mais uma vez, quem pagará a alta fatura que tais decisões irão
cobrar nos anos vindouros será a população mais carente que,
certamente, não poderá colocar os filhos para estudar nas caras
escolas que os filhos do governador estudaram, da mesma forma que
não pode contar com o atendimento médico privado de nível
internacional que Cabral e sua família desfrutam ou assistir aos
caríssimos jogos da copa das confederações, disputados nos
faraônicos estádios, construídos com o dinheiro de seus impostos.
Fábio Campelo é historiador e professor de história da rede estadual do Rio de Janeiro.
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