quarta-feira, 19 de junho de 2013

Tempo Ocioso

Por Fábio Campelo 

 No jornal de hoje, li uma notícia a respeito do veto do governador Sérgio Cabral Filho ao projeto aprovado em votação na ALERJ de acordo com o qual o governo do estado seria obrigado a lotar seus professores em uma única escola, impedindo assim o desgaste provocado pelo deslocamento dos docentes entre várias U.E. Diferentes, ao longo de sua carga horária diária. No veto, o fuherr das Laranjeiras afirma que tal medida faria com que muitos professores ficassem com “carga horária ociosa” e que isso obrigaria a contratação de 11 mil professores, onerando o estado em 280 milhões de reais. Tanto o veto quanto sua justificativa nos mostram revelam alguns dados importantes sobre a visão do governo do estado a respeito da educação e seus profissionais.
Primeiro: Ao classificar o tempo que o professor passa na escola sem ser em regência de turma como “tempo ocioso”, o governador (e a equipe que o assessora) demonstram ao mesmo tempo uma profunda ignorância a respeito do cotidiano escolar (e dos estudo pedagógicos realizados nas últimas 3 décadas) e uma filiação as doutrinas neoliberais de mercantilização do conhecimento as quais defendem que as escolas deveriam ser meros centros de formação de trabalhadores com baixa qualificação. Uma infinidade de estudos comprovam que os projetos extraclasse e a efetiva participação do professor na elaboração das políticas pedagógicas das escolas (ambas atividades realizadas nos momentos em que o professor está na escola mas fora da regência de turma) são fundamentais para a efetivação tanto de uma educação de alto nível quanto para a implementação de aulas de turno integral, proposta inclusa nos projetos educacionais de virtualmente todas as redes de ensino atualmente.
Esses argumentos não são teóricos, são práticos. Colégios reconhecidos como centros de excelência de ensino tais como o Colégio Naval, o CEFET, o Colégio Militar, Colégio São Bento, etc. Adotam essa filosofia, pagando pela dedicação exclusiva de seus docentes mas ocupando apenas uma pequena parcela de sua carga horária com regência de turma. Os resultados práticos disso são profissionais motivados e comprometidos com a práxis escolar de seus locais de trabalho, ao invés de formar um grupo de professores adoentados, estressados e sobrecarregados pelas condições de trabalho desumanas.
Segundo: A argumentação que a contratação de 11 mil professores geraram um impacto em folha inaceitável para as finanças estaduais demonstram as prioridades que norteiam esse governo. Como, pergunto eu, um investimento de 280 milhões de reais para a contratação de professores pode ser considerado um impacto tão devastador aos cofres públicos enquanto gastos de 1,2 bilhões de reais para a reforma de um estádio (que foi entregue a iniciativa privada por 560 milhões a serem pagos em 30 anos) não são?
Ao longo de seus dois mandatos Il Duce fluminense fechou 98 escolas e investiu menos de 5% do orçamento estadual para a educação enquanto os gastos com viagens do alto escalão do governo triplicaram no mesmo período. Infelizmente, nada posso falar com relação aos gastos do governo estadual com os megaeventos pois, desde o início do ano, o governador proibiu a divulgação desses valores para o público. Outra indicação das prioridades do atual governo é o fato de que, nos últimos 7 anos, os gastos com segurança pública e publicidade praticamente dobraram enquanto os investimentos em educação permaneceram os mesmos ou, em algumas áreas, reduziram.
O fato é que o estado do Rio de Janeiro, segundo estado mais rico da federação e um dos cem maiores produtores de petróleo do mundo, tem dinheiro de sobra para contratar 11, 22 ou 33 mil professores porém a educação nunca foi, não é e jamais será prioridade da corja que administra nossa unidade federativa pois, pela lógica oligárquica, atávica e canalha dessa gente, melhor que investir em ensino e preparo para a população mais carente é gastar com megaobras e alugueis de equipamentos (que oneram o erário sem acrescentar nada ao patrimônio) e com a polícia para reprimir aqueles que porventura se manifestem contra esse estado de desgoverno e absurdo.
Terceiro: Ao achar justo e correto que um professor tenha que se desdobrar entre cinco ou seis escolas diferentes (muitas vezes espalhadas por cidades diferentes), o ogro da zona sul mostra um completo descaso e desrespeito não apenas pelos profissionais mas pelos seres humanos que dedicam suas vidas a ingrata tarefa de construir o futuro na vã esperança de um mundo melhor para as próximas gerações .

Mais uma vez, o governo do estado mostra quais são seus verdeiros interesses e para quem verdadeiramente esse estado é governado e, mais uma vez, quem pagará a alta fatura que tais decisões irão cobrar nos anos vindouros será a população mais carente que, certamente, não poderá colocar os filhos para estudar nas caras escolas que os filhos do governador estudaram, da mesma forma que não pode contar com o atendimento médico privado de nível internacional que Cabral e sua família desfrutam ou assistir aos caríssimos jogos da copa das confederações, disputados nos faraônicos estádios, construídos com o dinheiro de seus impostos.

Fábio Campelo é historiador e professor de história da rede estadual do Rio de Janeiro.  

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