sexta-feira, 10 de maio de 2013

Não, você não está em perigo.


(leia até o fim)

Cuidado! a qualquer momento um ônibus desgovernado repleto de menores estupradores e homicidas vai invadir a sua casa, roubando todos os bens que vc zelosamente levou a vida inteira para acumular e atacando sexualmente seus entes queridos. Para melhor se proteger, você pode tentar comprar uma arma de fogo mas, infelizmente, a incompetência do governo fez a inflação disparar encarecendo muito a boa e velha Taurus 9mm e os mal intencionados deputados defensores dos direitos humanos criaram leis que tornam impossível que os cidadãos de bem comprem esse tipo de equipamento defensivo que, agora, só pode ser adquirido pelas milícias e grupos terroristas que vão, com certeza, incendiar o Brasil nos próximos anos.

Se você só conhece o mundo real através da grande mídia, certamente concorda com essa visão.

Uma das grandes (e provavelmente única) sacadas políticas do grupo político do ex-presidente estadunidense George W. Bush, maravilhosamente percebida pelo cineasta Michael Moore, foi que a "doutrina Tarkin" tinha aplicação prática no mundo rea (só para esclarecer, Grand Moff Tarkin é um personagem da série Star Wars que formulou o seguinte pensamento político " o medo mantém todos na linha"). Na prática, o que Bush e os falcões republicanos perceberam foi que uma população assustada torna-se acrítica, conservadora e dócil passando aceitar os mais absurdos disparates desde que sejam propostos em nome da "segurança nacional". Um bônus adicional é que o sensacionalismo em torno da violência ou do terrorismo, promovido pela grande mídia, serve para ocultar outras manobras escusas praticadas pelo governo (o sensacionalismo sobre a Al'Qaeda permitiu ao governo dos EUA desregulamentar todo o sistema econômico na surdina, o que foi uma das razões para a crise mundial iniciada em 2008).
Após mais ou menos uma década de atraso, as lideranças políticas brasileiras começam a despertar para os benefícios da doutrina Tarkin, criando factóide atrás de factóide para apavorar a população e ocultar suas práticas imorais.
A alguns dias, a população do Rio de Janeiro vive em pânico dos coletivos da cidade, as pessoas padecem de um estado permanente de terror com medo de serem mortas ou estupradas ao embarcarem em um deles e das hordas de menores infratores que andam livres e debochando da sociedade. È OBVIO que as péssimas condições do transporte público e a violência urbana são questões muito sérias mas não são os problemas, são apenas sintomas do verdeiro problema, que é cuidadosamente ocultado pela cobertura parcial e comprometida da grande mídia de direita. A verdade inconveniente é que a mão e o pai de todos os males que nos afligem atualmente são a impunidade das elites e o favorecimento de certos setores sociais em detrimento de outros tantos.
Vejamos, por exemplo, o caso dos ônibus na cidade. Sempre que um novo caso envolvendo coletivos chega a conhecimento público, a primeira providência da mídia é culpabilizar o condutor ou a más condições de conservação e manutenção do veículo porém, em momento algum, nem a mídia e nem o poder público sequer cogitam em retirar a concessão da prestação do serviço das empresas, que não fazem a manutenção adequada de seus coletivos além de impor aos seus motoristas jornadas de trabalho desumanas e com baixa remuneração. No caso do menor que estuprou a passageira no coletivo (que fique BEM claro: SIM, EU ACHO QUE ELE TEM QUE SER PUNIDO PELO QUE FEZ E NÃO, NÃO ACHO QUE A PUNIÇÃO QUE ELE VAI RECEBER É CONDIZENTE COM O DELITO COMETIDO), frisa-se muito a condição de menor do infrator e a leniência com que a lei o trata mas casos semelhantes (ou até mais bárbaros) que envolvam os filhos das elites, sequer chegam aos jornais. A punição deve ser rígida, mas apenas para os membros das classes populares pois, o único crime imperdoável nesse país, sempre foi ser pobre.
Porém, a questão mais grave reside no fato de que, enquanto nos apavoramos com os coletivos homicidas e os menores estupradores, nos esquecemos de ver todo o dinheiro público que é gasto em obras INÚTEIS e que, em sua maioria, servem apenas para atender aos interesses de um pequeno grupo de plutocratas ambiciosos e canalhas. O bilhão investido na reforma do Maracanã foi retirado das escolas, onde poderia ser investido para dar um futuro aos jovens que hoje seguem o rumo da criminalidade ou nas agências reguladoras dos serviços públicos, que impediriam que transportes sem condições mínimas de segurança e motoristas infratores continuassem circulando pela cidade. Enquanto nos preocupamos e debatemos sobre a maioridade penal, não ligamos ou percebemos quando um patrimônio histórico que custou mais de um bilhão aos cofres públicos (novamente o Maracanã) é entregue de mãos beijadas a um canalha incompetente e corrupto, que não tem mais nenhuma credibilidade no mercado internacional mas é um bom amigo de nosso governador. Enquanto nos aterroramos com as ameaças de atentados terroristas na visita do Papa Francisco, não ficamos sabendo do resgate bilionário que o BNDS, com o nosso dinheiro, está preparando para acudir o amigo do governador.
A direita reacionária sempre defendeu que "questão social é caso de polícia" mas, enquanto não atacarmos as reais questões de nossa sociedade (desigualdade social, concentração de renda, corrupção, favorecimentos políticos), medidas como a redução da maioridade penal serão apenas paliativos cruéis e absolutamente ineficazes.

Leia mais no meu blog:
http://campelonacontramao.blogspot.com.br/

terça-feira, 5 de março de 2013

O CONTRASSENSO DE WASHINGTON


Por: Fábio Campelo Teixeira.

O maior truque que o diabo fez foi convencer o mundo de que ele não existia, e a maior artimanha do capitalismo foi convencer a humanidade que não existe outra forma de viver possível fora da sociedade do consumo desenfreado e da desigualdade social.
O chamado “Consenso de Washington” foi uma reunião realizada no início dos anos 90 na capital dos EUA, da qual participaram as lideranças dos principais órgãos monetários internacionais, ou seja, o FMI, o Banco Mundial e o Federal Reserve (o “Banco Central” dos EUA). Dessa reunião saiu o “receituário”, ou seja, o conjunto de normas e ajustes que esses órgãos exigiriam que os países em desenvolvimento seguissem na década seguinte para poder continuar contando com crédito no mercado internacional. Qualquer um que tenha vivido na América Latina dos anos 90 sabe de cor as medidas que constavam nesse receituário (corte de gastos públicos, afrouxamento de leis trabalhistas, desregulamentação econômica, redução dos programas de amparo social, etc.) bem como as consequências advindas dele (recessão, desemprego, estagnação econômica, etc.).
Em pleno caos em decorrência da implosão do bloco socialista, os papas neoliberais acenavam para o novo mercado em potencial, surgido com o fim do muro de Berlim, miragens repletas de visões de riqueza, carros de luxo e fast food, ao mesmo tempo que sinalizavam para os países subdesenvolvidos a futilidade de se insistir em um sistema que estava em ruínas pelo mundo afora. Nos dois casos, o discurso preponderante era o mesmo: não há vida fora do capitalismo liberal.
Pelos dez anos seguintes, o mundo viveu em transe, acreditando nas promessas liberais de que, caso se submetessem agora e adotassem o receituário, embora o presente fosse de crise e privações, o futuro seria brilhante e promissor para todos. A medida que os anos 90 avançavam, a verdade começou a se tornar cada vez mais óbvia para quem quisesse enxergá-la: o receituário somente funcionava para os países desenvolvidos pois, através dele, eles obtinham duas coisas indispensáveis para sua continua expansão econômica:
1)a estagnação das economias em desenvolvimentos, evitando assim a entrada de novos jogadores no concorrido mercado internacional,
2)a abertura total e irrestrita dos mercados emergentes para as suas empresas, sustentando assim o ritmo acelerado de crescimento de suas economias.
No início dos anos 2000, as populações dos países onde o receituário do FMI foi adotado começaram a se revoltar com o contínuo estado de recessão em que viviam e, sentindo-se traídos pelas promessas neoliberais, começaram uma guinada a esquerda, rejeitando o receituário e favorecendo o surgimento de movimentos e governos contrassistêmicos e antiliberais. Acuada, a direita liberal reagiu com fanatismo e violência, agredindo essa movimentação das populações latino-americanas, furiosamente acusando governos legitimamente eleitos de ditaduras (em um arroubo de insânia destra a Veja chegou a comparar o governo de Hugo Chaves a ditadura nazista de Adolf Hitller) e vociferando a plenos pulmões que essa aventura rebelde antiliberal iria terminar em caos e tragédia. Novamente citaram a pujança econômica dos países desenvolvidos como exemplo de sucesso e venderam com mais veemência a ideia de que o receituário era a única forma possível de se atingir tal prosperidade e, novamente, houve quem lhes desse ouvidos e adotassem suas preleções com fanatismo quase religioso.
Então, chegamos ao ano de 2008.
O discurso messiânico do Fundo Monetário Internacional (“O receituário é o caminho, a verdade e a luz”) já havia começado a ruir; adotando medidas econômicas diametralmente opostas ao que preconizava o receituário de Washington, a Malásia começou a apresentar índices invejáveis de crescimento, o Brasil começou a se mostrar mais robusto e menos frágil aos humores do mercado financeiro internacional exatamente quando começou a abandonar a ortodoxia econômica liberal e, finalmente, nem a Venezuela e nem a Bolívia afundaram na latrina de caos econômico que os profetas liberais haviam previsto. O golpe de misericórdia, contudo, ocorreu bem no coração do sistema.
Como disse anteriormente, a primeira década dos anos 2000 foi um período extremamente próspero para os países liberais, com suas economias registrando robustas taxas de crescimento. O que os responsáveis por essas taxas não contavam ao mundo é que essa economia crescia a base de anabolizantes financeiros que patrocinavam um cassino econômico, sustentado fragilmente na concessão de crédito barato a população sem condições de quitar seus débitos. Assim sendo, surge uma economia baseada na especulação e na movimentação virtual de capitais ilusórios entre mercados falsamente estáveis. Não entendeu? Não se preocupe, nem mesmo os “gênios” do mercado financeiro que criaram essa roleta russa compreendem completamente o que aconteceu. O fato é que, como toda bolha capitalista essa também explodiu e arrastou todo o mundo desenvolvido junto com ela para o buraco. Quem escapou razoavelmente ileso? Aqueles que se recusaram a seguir o receituário milagroso do FMI.
Entramos na segunda década do século XXI e, novamente, os profetas do caos preconizam o caos para aqueles que tentam estilos de vida alternativos ao liberalismo e, desse vez, os ataques também vem dosados com ameaças veladas a liberdade de expressão e a privação das liberdades individuais do cidadão caso este ouse viver foram da “proteção” capitalista.
E ai? Vamos tentar algo diferente ou vamos mais uma vez ouvir as vozes que já arrastaram o mundo para a beira do caos em, pelo menos, três ocasiões diferentes (1929, 1974 e 2008)?

Fábio Campelo é historiador.

Cada um com seus problemas ...

Por: Fábio Campelo Teixeira.

Qual é o problema da educação hoje em dia?
Em primeiro lugar, eu diria que a educação não tem PROBLEMA ela tem PROBLEMAS, problemas que perpassam por todos os setores que transitam pelo espaço escolar. Os responsáveis pelos problemas da educação são os gestores que insistem em mercantilizar os sistemas educacionais transformando as escolas em indústrias padronizadas regidas por metas irreais; são os alunos para quem a escola possui cada vez menos significado para além de seu aspecto social básico; são os responsáveis que não exigem dos gestores uma educação de qualidade, se contentando em ter um local onde possam depositar seus filhos cinco horas por dia; são os professores que tem cada vez menos interesse e disposição para cumprir suas obrigações enquanto educadores.
Sob qualquer aspecto que se analise, o sistema educacional está absolutamente falido. Esses são os fatos mas a pergunta que se impõe a eles é como chegamos a isso?
Eu proponho três explicações:
1) As sociedades ocidentais tem se tornado cada vez mais narcisistas. Atualmente, as pessoas tornam-se cada vez mais incapazes de enxergar qualquer coisa que não seja um reflexo distorcido delas próprias, tornando-se desinteressadas de qualquer questão que transcenda o próprio ser. Para que discutir o crescente problema dos usuários de drogas (os cracudos) se eu não sou um deles? para que apreciar arte se ela não é uma fotografia minha? Que me interessa o que político A, B ou C faz? eu voto nulo! Ich, vor allem (eu, acima de todos) é lema das novas gerações e o I-Phone apontado contra o espelho o seu brasão e sendo a escola o local onde se vai para acessar o conhecimento acumulado e sistematizado da humanidade através dos anos, ela se torna cada vez menos atraente.
2) No ocidente contemporâneo vivemos sob a égide do liberalismo publicitário que prega, acima de qualquer outra coisa, dois dogmas fundamentais: "Tenha, não seja" e "A autogratificação tem que ser imediata". Cada vez mais a sociedade impõe as novas gerações que seu valor seja medido por suas posses transformando a compra do tablet ou do celular da moda em um dilema muito mais presente do que obter justiça social em ou, em outras palavras, os jovens vão progressivamente deixando de ser revolucionários em potencial para se transformarem em consumidores vorazes. A satisfação somente é obtida através do consumo e ela tem que ser efêmera pois é preciso consumir mais, seja lá o que for (serviços, mercadorias, pessoas). O trabalho duro e a satisfação que somente é obtida em decorrência desse tornam-se, cada vez mais, obsoletos e, uma vez que a escola se  baseia exatamente nesse princípio de esforço e gratificação posterior, ela se torna um estorvo massante para os jovens que se tornam francamente hostis a ela.
3) O elitismo proselitista de muitos educadores os levam a uma cegueira que os faz enxergar apenas e tão somente uma verdade, uma forma de ensinar, uma forma de agir. Quando constatam que seus métodos são ultrapassados e que sua visão é excludente, esses "educadores" passam a assumir discursos que variam do paternalismo mais asqueroso ("eu não posso ensinar minha matéria! eles não sabem nada!") a agressividade xenofóbica pura e simples ("[pobre/negro/nordestino/etc] é tudo burro! não tenho como ensinar!"). Para esses dificuldade se transforma em Empecilio e empecilio se transforma em impossibilidade e, assim, temos uma legião de educadores que seguem, ano após ano, sem cumprir com seus deveres, jogando a culpa de sua incompetência na má fé alheia.
4) A constante mercantilização dos sistemas educacionais, promovida por seus gestores. É comum atualmente a ideia que a educação deve ser gerida como um negócio porém os estudos na área já provaram por A + B  sendo: a)que  o aprendizado é um processo individual e subjetivo e b) que é preciso RECURSOS para se obter uma educação de qualidade. Essa duas propostas são diametralmente opostos as ideias "meritocráticas" que pretendem estabelecer metas de produtividade e redução de custos, transformando o processo todo em mera reprodução das condições postas socialmente.
5) Nunca antes, em toda a  história da humanidade se glorificou tanto a violência como nos dias atuais. A violência é o ar que respiramos nas sociedades contemporâneas, a única diferença foi que substituímos a violência física de outras eras por outras variedades de violência mais sutis como o desrespeito, o preconceito, o sexismo, o proselitismo religioso e a violência moral. Enquanto microcosmo social, a escola reproduz essas práticas de violência transformando-se em um ambiente hostil para todos que a frequentam, levando os alunos a abandoná-la e degradá-la enquanto instituição e os professores aos consultórios médicos.

Esse texto foi apenas uma reflexão/desabafo de alguém que vivencia a aproximadamente 15 anos o universo escolar como educador. Não pretendo ser o profeta do caos nem a salvação do mundo corrupto, quero apenas ser aquele que ajudou a iniciar um diálogo sério e imprescindível sobre a educação em nossa sociedade.

Fábio Campelo Teixeira é  professor e historiador.
por Ricardo C. Teixeira

Esqueça por um instante, taça Guanabara, caso Bruno e etc. Atenham-se aos próximos dois dias, mais precisamente, à reunião do COPOM. Há rumores de que, em médio prazo, haverá a necessidade de se aumentar a taxa básica de juros após longo período de quedas contínuas para segurar o avanço inflacionário. Isto é ruim para as perspectivas de investimento externo, mas, olhando bem detalhadamente, é bem pior do que parece...
Vamos lá...
Dos principais parâmetros para avaliar a saúde macroeconômica de uma nação, a Balança de Pagamentos divide-se em duas “contas” fundamentais, a balança comercial, que é representada pela aritmética resultante das importações e exportações e o saldo em conta corrente, que é a aritmética resultante do fluxo de divisas que entram e saem deste mesmo País.
Com os “poderosos” 0,9% de crescimento do PIB, nos é somente passada uma informação absoluta e vaga de desempenho, mas, na verdade, a análise é muito mais profunda.
O que nosso desempenho industrial, somado ao peso de nossa máquina estatal e ao terrível “custo Brasil” que está diretamente relacionado à nossa infraestrutura ainda precária normalmente nos levaria, é a um cenário pior, ou seja, de “decrescimento” econômico. Então a pergunta que não quer calar é a seguinte: Ricardo, por que então conseguimos, ainda que palidamente, registrar crescimento da economia no ano que passou? A resposta? Consumo meus caros...
O aumento da largura da “banda de classe média” nos permitiu mais renda e acesso fácil ao crédito e, consequentemente, o estouro da onda de consumo. Isto é ruim? Não! É ótimo termos o aumento da capacidade de compra da população. O problema meus caros, é que o aumento do consumo precisa se sustentar, ou seja, a oferta encontrar a demanda. Como isto poderá ocorrer em um País onde a atividade industrial naufraga?
É aí que retornamos ao primeiro parágrafo. Para conseguir aumentar a curva de oferta e absorver o consumo crescente, importamos mais meus caros...
Importando mais, nos aproximamos da condição de déficit da balança comercial...
Com déficit na balança comercial, influímos negativamente no saldo da Balança de Pagamentos...
Para compensar a BP, aumentamos nosso lastro em moeda estrangeira para valorizar o Real...
Valorizando o Real, dificultamos novos entrantes em nossa economia...
Com menos empresas entrando, nossa indústria não cresce...
Um doce para quem adivinhar o impacto no aumento da Selic para a mesma e velha combalida indústria Brasileira?


Ricardo Campelo Teixeira é engenheiro de produção.

sexta-feira, 1 de março de 2013

O Banheiro do Papa


A renúncia do Papa nos mostra que em termos de corrupção e falência da classe política, nós ainda temos muito o que aprender com nossos mestres italianos. Ao longo dos anos, alguns mitos foram criados e se somaram a aura de mistério que envolve o Vaticano em uma tentativa de lhe conferir credibilidade e isolá-lo do ambiente político italiano, historicamente marcado por vícios e defeitos que o tornam ineficiente e caricato. Uma dessas idéias é a da independência do Vaticano.
A Cidade do Vaticano é frequentemente referenciada como sendo o menor Estado do mundo, construindo a ideia que, embora seja pouco mais que um sub-bairro incrustado no meio da capital italiana, o Vaticano estaria isolado dos males da política nacional exatamente por ser outra nação. Na prática, todo o escândalo que orbita a renúncia de Bento XVI mostra que as mesmas forças que agem nas sombras do Paazzo Chigi também obscurecem a praça São Pedro.
A história nos mostra que lutas políticas, tráfico de influência e relações escusas com o crime organizado não são novidade no Vaticano. Rodrigo Bórgia (Papa Alexandre IV) gastou fortunas para comprar os votos do colégio de cardeais e garantir sua eleição, além de se utilizar de capangas e soldados mercenários para matar ou intimidar seus opositores; João XII dedicava mais tempo ao estupro de peregrinas do que a condução espiritual da santa sé. Lutero se horrorizou tanto com o que presenciou na corte de Leão X que preferiu romper com a igreja e formar sua própria religião e Pio XI ficou cego a brutalidade do Nazi Fascismo para conseguir a independência política de suas posses pessoais, criando o Estado do Vaticano. Embora esses sejam exemplos extremos, o fato é que o poder secular sempre seduziu e influenciou aqueles que, em tese, deveriam dedicar suas vidas a condução espiritual de uma parte significativa da população mundial, fazendo da cúpula da igreja um ambiente ideal para a proliferação de carreiristas ambiciosos que, não se enganem os fiéis, agiam com liberdade e o conhecimento tanto do próprio Bento XVI quanto de seu antecessor João Paulo II. A renuncia de Ratzinger não é um ato de contrição ou um grito desesperado pela decência e a moralização da instituição religiosa, é simplesmente a remoção de um elemento que não era mais útil as engrenagens obscuras do poder católico. Com sua renúncia, no entanto, Bento XVI nos mostra que é um profundo conhecedor e estudioso da história brasileira.
Em 1954, Getúlio Vargas, um dos mais populares presidentes brasileiros, não vivia seu melhor momento na política. Com denúncias de corrupção e favorecimento dentro de seu governo surgindo diariamente na grande mídia (liderada por Carlos Lacerda), Getúlio optou por "sair da vida para entrar para a história", dando um tiro a queima-roupa no peito. Com o suicídio, a população que saia as ruas para acusá-lo e pedir sua renúncia, agora lotava os funerais para homenageá-lo e honrá-lo, esquecendo todas as suas falhas políticas e pessoais.
Ao renunciar, Bento XVI conseguiu efeito político semelhante pois sua desastrosa condução da igreja nos últimos oito anos tem sido revista e revisada a luz do fato novo que ele criou com sua renúncia e, assim, o Papa antipático, conservador, elitista e com um passado relacionado ao nazismo se tornou em uma espécie de mártir, um herói que admite sua própria impotência para lidar com forças sombrias que não conhecia.
O papa emérito conduziu uma igreja que se isolou das demais religiões, sempre recusando o diálogo, defendeu posições reacionárias e elitistas e manteve-se omisso  diante da enxurrada de denúncias de abusos sexuais/econômicos/políticos praticados pelos agentes católicos mundo afora. A igreja católica encolheu na última década e se distanciou tanto de seu rebanho que perdeu quase toda a sua legitimidade para falar em nome dos quase 1,28 bilhões de católicos que existem no mundo atualmente e tudo isso foi feito, se não com o beneplácito dos últimos dois vigários de Roma, com seu conhecimento e leniência. Bento XVI não é mártir ou herói, ele apenas não é mais útil.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

O Preço Social

Por: Fábio Campelo.

Em 2007, a cidade do Rio de Janeiro organizou os jogos pan-americanos mais caros da história. Embora as sucessivas auditorias que foram realizadas desde então, ainda não tenham sido capazes de determinar com certeza quanto do dinheiro público foi gasto na sangria, seguramente já é possível afirmar que o pan 2007 foi mais dispendioso do que os jogos olímpicos de Londres em 2012, por exemplo.
Para justificar a farra bilionária, o COB e as autoridades estaduais e municipais alegaram insistentemente que as obras eram caras pois estavam sendo construídas já atendendo as exigências do COI, preparando a cidade para receber os jogos olímpicos  futuramente, dotando-a de uma infra-estrutura esportiva completa, ou seja, gastou-se naquela época para economizar no futuro.

Recentemente, acompanhando as notícias sobre as olimpíadas de 2016 pela grande mídia, vi duas notícias que atraíram minha atenção: O velódromo construído para o pan será demolido e, em seu lugar, erguido um novo e o Parque Aquático Maria Lenk será usado, apenas, na competição de polo aquático, sendo que serão construídas ou adaptadas outras instalações para receber as demais modalidades de esportes aquáticos. Para justificar a mudança, o monarca do COB, Carlos Arthur Nuzman disse que as "fotos dos saltos ornamentais ficaram maravilhosas" no novo local.

Ora, somando o que se gastou para erguer o velódromo e o Maria Lenk chegamos a expressiva soma de cerca de 150 milhões de reais, verba que seria o suficiente para construir, equipar e manter por um ano 10 hospitais públicos com mais 60 leitos cada, acabando com desumano espetáculo das filas quilométricas nos postos de saúde ou com a vergonhosa espera de anos por atendimento em centros de referência.
150 milhões de reais é dinheiro suficiente para construir e mobiliar mais ou menos 25 escolas com dez salas de aula climatizadas, resolvendo assim os problemas de superlotação existente no estado onde, frequentemente, 50 crianças são espremidas em salas de aula com capacidade para metade disso.
150 milhões de Reais é dinheiro suficiente para iniciar e consolidar uma política ambulatorial e de amparo para recolher e tratar adequadamente dependentes químicos (os cracudos), resolvendo um grave problema social e médico, ao invés de se utilizar medidas truculentas e fascistas que além de não resolver, somente agravarão o problema a médio prazo.

150 milhões de reais trazem dignidade a muita gente mas, ao invés disso, eles foram simplesmente jogados no lixo. Por que? por causa de nossa infalível capacidade de escolher sempre o que existe de pior, de mais podre, de mais execrável na raça humana para conduzir a coisa pública, ou seja, os Nuzman, os Ricardos Teixeiras, os  Calheiros, os Sarneys, os Eduardos Paes e os Sérgios Cabrais da vida, Ratos imundos, ladrões, corruptos e incopetentes da pior espécie.

Fábio Campelo é historiador.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Agente não quer só comida


Os jornais de hoje noticiaram que o governo do estado e a prefeitura vão fechar 49 espaços culturais, em reação provocada pelo incêndio da boate Kiss. É obvio que, qualquer estabelecimento público tem que oferecer segurança a seus frequentadores e que aqueles que se encontram abaixo dos padrões exigidos devem sofrer as sanções previstas em lei, porém há alguns aspectos que devemos levar em conta ao analisar essa medida:
Desde 1998 tem sido prática constante dos governos carioca e fluminense a prática de acabar com os espaços públicos, principalmente aqueles destinados a atender as demandas das populações mais carentes. Ao longo dos últimos 15 anos foram fechadas escolas, hospitais, postos de saúde e parques e, aproveitando-se do ocorrido em Santa Maria, os "gestores" da coisa pública do Rio de Janeiro voltam sua sanha reducionista para os espaços culturais sendo que desses, não por acaso, os mais vitimados são exatamente as lonas culturais.
Quem conhece sabe que as lonas são importantes focos fomentadores de cultura nos subúrbios e comunidades carentes, promovendo shows de qualidade e uma série de atividades e cursos voltados para as populações de baixa renda da cidade. A interdição das mesmas acaba com os únicos espaços de lazer e cultura localizados fora das regiões centrais da cidade dificultando ainda mais o (pouco) acesso que as classes populares tem as manifestações artísticas e culturais. O governo afirma que a interdição será por apenas 20 dias, mas a história nos mostra que, findo esse prazo, os espaços localizados nas áreas nobres da cidade serão reabertos e os demais serão relegados ao mais completo abandono afinal a lógica meritocrática e venal dos nossos alcaides julgam desperdício de dinheiro investir em cultura para as camadas populares, visto que estas devem se manter em estado de brutalização e subserviência.
Outro aspecto que devemos ressaltar dessa medida é a forma de pensar irresponsável de nossos governantes. Até a queda dos prédios na Avenida Rio Branco (alguém ainda lembra disso?), não havia nenhum interesse em fiscalizar as obras e alterações realizadas nas construções da cidade; até a explosão do restaurante, ninguém se importava se haviam estoques clandestinos de gás de cozinha nesses lugares e, somente após o incêndio, vão se investigar os estabelecimentos com alvarás caçados desde 2010. Por que sempre é preciso que alguém morra para que as autoridades se movam? até quando o direito ao lucro dos poderosos vai se sobrepor ao direito a vida de todos?
Finalmente, encerro com o seguinte questionamento: Se ao invés de um boate de classe média alta, cheia de universitários, no Rio Grande do Sul o incêndio tivesse ocorrido em um Baile Funk no complexo do alemão, frequentado pelas camadas populares, a mídia faria a mesma cobertura do fato? a tragédia teria comovido o Brasil da mesma forma?

Fabio Campelo é historiador