domingo, 11 de novembro de 2012

O Chorão

Por: Fábio Campelo.


Desde que perdeu a condição de distrito federal a cidade e o estado do Rio de Janeiro vem sofrendo agressões esporádicas por parte da federação. Em 1975, uma canetada do general presidente Geisel acabou com a autonomia da cidade integrando-a ao estado do Rio de Janeiro (medida nociva para ambos); em 1988, a nova constituição previu que o ICMS dos derivados de petróleo, contrariando a regra aplicada para todos os demais produtos comercializados no Brasil, deveria ser recolhido pelo estado de destino e não de origem do produto. Para compensar a perda de arrecadação desses produtos, foram criados os royalties e as participações especiais sobre a industria petrolífera e, agora, o congresso julga por bem retirar essas compensações do estado. Situação complexa que exige uma atuação decisiva das lideranças fluminenses e, principalmente, daquele cuja função, entre outras coisas, é articular as diferentes forças políticas do estado em defesa dos interesses da população.
Sérgio Cabral possui um conjunto de características que ajudaram a forjar sua trajetória política desde o início: sensibilidade para identificar grupos sociais representativos porém pouco representados politicamente (os idosos, por exemplo), filiação ideológica amorfa, representada em um discurso vazio repleto de grandes metas genéricas, facilmente adaptável aos gostos do público-alvo que deseja conquistar (“temos que valorizar a 3ª idade”, “temos que combater a corrupção do legislativo”, etc.) e um profundo oportunismo político que o permite fazer e desfazer suas alianças de acordo com a direção e a força dos ventos políticos. Tais características permitiram que ele galgasse os degraus da vida pública e assumisse a chefia do executivo fluminense em 2006, posição confirmada com sua reeleição em 2010.
Uma vez no Palácio Guanabara, Cabral usa suas ferramentas políticas para vencer a disputa contra seus antigos aliados, o casal Garotinho, assumindo plenamente a chefia da quadrilha pmdebista no estado e reforçando seus laços com o governo federal. A partir da metade final de seu primeiro mandato, o governador assumiu pessoalmente o controle sobre a política estadual criando uma poderosa rede de clientelismo a qual integraram-se a esmagadora maioria dos prefeitos e oligarquias regionais do estado. Entretanto, quando chegou a hora de demonstrar sua verdadeira liderança política, Cabral apenas chorou.
A proposta de alteração da partilha dos royalties de autoria do deputado Ibsen Pinheiro representava um grave golpe as finanças do Rio de Janeiro que, como principal produtor, também seria o principal espoliado. Ao invés de articular as forças políticas do estado no sentido de impedir que a proposta fosse adiante, Cabral limitou-se a aparecer em público com os olhos marejados e o rosto úmido com suas lágrimas hipócritas e ridículas, implorando (como um pedinte e não como o governador do segundo estado mais poderoso da união) que o executivo federal vetasse a proposta. O que estava por trás do choro de Cabral não era o lamento pelos danos que a queda na arrecadação provocaria a população do Rio de Janeiro mas sim ao abalo sísmico que ela provocaria ao seu projeto pessoal de poder. Da mesma forma, o veto de Lula foi motivado não pelo sofrimento da população mas pela necessidade de garantir apoio a sua candidata ao planalto no Rio de Janeiro.
Seguro de seu papel como grande eleitor no Rio de Janeiro, Cabral pode, novamente, negligenciar a questão dos royalties e se dedicar a sua verdadeira prioridade, ou seja, reforçar sua rede política local usando os grandes eventos internacionais dos próximos anos (copa em 2014 e olimpíadas em 2016) como instrumento para capitalizar sua rede clientelista. Ambições pequenas de uma mente estreita. O fortalecimento de novos grupos na política local do Rio de Janeiro conduziu Cabral a disputas internas (principalmente contra Jorge Picciani, seu principal capo), enfraquecendo o poder seu grupo político e inviabilizando a formação de uma frente política ampla em defesa dos interesses do Rio e do Espirito Santo no congresso.
A cobiça dos estados não produtores pelo el dorado petrolífero fez com que a lei de partilha voltasse, e com mais força, para a agenda do legislativo e, em função da falta de uma coalizão pró Rio no congresso, acabou sendo aprovada, provocando perdas ainda mais graves as finanças do estado. Novamente tendo que lidar com o problema, o governador não atentou para questão dos rompimentos de contrato implícitas no texto, para inconstitucionalidade da proposta ou mesmo para os grotescos erros presentes na redação da lei, limitou-se a ir a público novamente e, com os olhos mareados e os lábios trêmulos afirmar que, sem royalties, sem olimpíadas. Patético.
A ameaça do chorão é ridícula e inconsistente uma vez que, em caso de risco real a realização dos eventos, o governo federal inundará as obras consideradas fundamentais com verbas públicas (desde a escolha do Brasil para sediar os eventos, o governo federal já vem contingenciando verbas para essa eventualidade), porém diz muito sobre a forma como Cabral enxerga a governança da coisa pública e sobre as suas prioridades enquanto chefe do executivo. Em momento algum o chorão mencionou o quanto a redução das verbas vai agravar ainda mais a situação caótica em que se encontram os transportes, a saúde e a educação no estado nem que isso poria em risco um dos poucos êxitos de seu governo: a segurança pública (como manter o exército de policiais ou as UPP's sem as verbas do petróleo?). Em sua visão de mundo, o governador apenas enxerga os grandes eventos internacionais e no quanto eles são fundamentais para a continuidade de seu sistema clientelista rasteiro e imoral. No momento em que precisou ser um líder, Cabral apenas mostrou que era mais um coronel com influencia nula para além de seu próprio curral eleitoral e, mesmo que se venda como o novo e o moderno, ele não representa nada mais do que a modernidade do atraso.

Fábio Campelo é Historiador

Nenhum comentário:

Postar um comentário