Por: Fábio Campelo Teixeira.
1988.
Contando com o apoio de governadores e deputados conservadores,
muitos com ligações viscerais com a ditadura, José Sarney consegue
impor sua vontade, barra a proposta de eleições diretas para
presidente em 1988 e faz estender seu mandato para 5 anos, ao invés
dos 4 originalmente previstos. Para garantir isso, Sarney teve o
amplo apoio de uma frente parlamentar conservadora que ganhou, na
época, a alcunha de “centrão”.
1997.
Articulando uma frente parlamentar multipartidária, Fernando
Henrique Cardoso, um dos que romperam com o PMDB em 1987/88 para
formar o PSDB, consegue aprovar a emenda constitucional nº 16,
instituindo a reeleição para os cargos do executivo e permitiu que
a mudança nas regras eleitorais beneficiassem aqueles cujos mandatos
ainda estavam em curso permitindo, dessa forma, que o tucano se
beneficiasse do sucesso político/econômico do plano real,
garantindo-lhe a láurea de se tornar o primeiro presidente reeleito
da história da república.
2005.
Precisando aprovar no congresso medidas importantes para o governo e
sem contar com a maioria, membros do governo Lula articulam um
esquema de desvio de verbas para pagar a deputados do PTB, PMDB, PFL
(DEM) e PL para que estes votassem a favor do governo em votações
de pautas críticas para o executivo. Denunciado por um dos
beneficiados pelo esquema (quando este foi excluído do mesmo), o
deputado federal Roberto Jefferson (principal apoiador de Fernando
Collor durante o processo de impeachment do mesmo). O esquema foi
batizado pelo próprio Jefferson de “Mensalão” e se tornou um
dos maiores esquemas de corrupção conhecidos da era republicana.
O
que esses três fatos tem em comum? Duas coisas: o pagamento de
parlamentares com verbas públicas para a aprovação de pautas do
interesse do governo e um sistema eleitoral que facilita e estimula a
existência de tal prática.
Desde
a redemocratização nos anos oitenta, virtualmente todos os governos
da nova república tiveram seus escândalos envolvendo grandes
esquemas de compra de votos parlamentares lu, usando nomenclatura em
voga atualmente, seus próprios mensalões. Ao invés de simplesmente
atribuirmos isso a falta de caráter da classe política brasileira,
devemos nos perguntar por que tais esquemas são tão comuns e
abrangentes no Brasil? Uma rápida análise nos mostra que o sistema
eleitoral brasileiro une duas características especialmente nocivas
e que permitem a proliferação pródiga de tais práticas:
Em
primeiro lugar, a legislação eleitoral faz poucas exigências para
a criação e a atividade política dos partidos. Em artigo publicado
em 02/11/2012 no jornal “O Globo”, o historiador Nireu Cavalcanti
afirma que o número excessivo de legendas apenas contribuem para
encarecer o processo eleitoral, além de dificultar o acompanhamento
de sua atividade política por parte da população, propondo que os
partidos percorram todos os meandros da política local e comprovem
ter representatividade, antes de se habilitarem a concorrer nas
eleições nacionais. Atualmente, o pluripartidarismo nacional conta
com cerca de 30 partidos, atuantes em todos os níveis da vida
política brasileira, um número absurdo composto, em sua maioria,
por agremiações sem identidade ideológica clara, objetivos
políticos definidos ou representatividade social relevante
proliferando as chamadas “legendas de aluguel”, partidos
forjados, em sua maioria, pelos interesses das oligarquias ou chefes
políticos locais e que agem como “exércitos mercenários”
eleitorais voltados, exclusivamente, ao atendimento dos interesses
pessoais de seus fundadores.
Em
segundo lugar, o coeficiente eleitoral (medida que define quantos
candidatos cada partido consegue eleger nas eleições parlamentares,
obtido através da divisão do número de votos válidos totais da
eleição pelo número de vagas em disputa) torna virtualmente
impossível que o partido que ocupa o executivo consiga a maioria no
legislativo, obrigando-o a negociar a cada votação com as demais
forças políticas presentes no parlamento. Esse mecanismo que,
originalmente, foi pensado para se evitar a excessiva concentração
de poder nas mãos de um único grupo político, na prática,
transforma o congresso em um balcão de negócios, onde os donos das
legendas de aluguel oferecem o apoio de suas bancadas a qualquer um
que se disponha a pagar o preço exigido.
Sociedades
democráticas tem como valores principais o diálogo e o entendimento
entre os diferentes grupos políticos que estão representadas nelas,
isso é óbvio, mas enquanto não forem promovidas profundas mudanças
políticas que coíbam a existência de legendas de aluguel e se
punam exemplarmente tanto os compradores quanto os vendedores de
votos, continuaremos a conviver com os centrões e mensalões que,
desde 1985, parecem ser a regra e não a exceção em nosso processo
político.
Fábio Campelo Teixeira é historiador.
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