segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Sobre Hobsbawm

Por: Fábio Campelo Teixeira.


 Com a morte de Eric Hobsbawm muitos começaram a criticar o pensamento do historiador inglês, principalmente em função da defesa apaixonada que este fazia do socialismo e por continuar a defendê-lo mesmo após a implosão do bloco comunista nos anos 90 do século XX. Uma das principais críticas (acusações) que lhe dirigem é o fato de que ele seria cego as atrocidades patrocinadas pelos regimes socialistas, exaltando apenas as qualidades da teoria. Muitos o chamam de cego, de fanático e, não poucos, de tolo.
Não vou entrar no mérito de que um senhor de 95 anos, seja quem for, merecia um tratamento mais respeitoso na ocasião de sua morte nem na questão que um pensador do peso e do renome de  Hobsbawm merecia uma crítica mais qualificada do seu trabalho. Vou me concentrar, apenas, na idiotice básica presente nas “críticas” dos pseudo-historiadores mais virulentos.
Antes de mais nada, qualquer crítica aos defensores do marxismo ou das teorias sociais cai por terra quando o crítico utiliza os regimes comunistas surgidos ao longo da guerra fria para afirmar que o regime é homicida e fracassado em sua origem. Ora, qualquer aluno secundarista sabe que o que houve na URSS, nos países do leste europeu e em muitas repúblicas da Ásia e da África foram ditaduras cruéis e sangrentas que se distanciaram muito dos ideais que, no começo, as motivavam. O Estado Soviético era um aparato burocrático titânico, dominado por uma estrutura partidária monopolista em nada se assemelhando a um Estado socialista tal como ele havia sido originalmente concebido por Marx, Engels, Lenin, Proudon, entre outros. Chamar a ditadura soviética de legítima representante do Socialismo é a mesma coisa que chamar um serial killer de legítimo representante do povo americano ou um jogador de futebol alcoólatra e farrista de legítimo representante do povo brasileiro.
Muito se falou, também, da “cegueira” de Hobsbawm que se recusava a enxergar as atrocidades provocadas pelo socialismo. A esses críticos eu pergunto: era uma cegueira semelhante a dos liberais que se recusam a aceitar as atrocidades patrocinadas pelo capitalismo e pela exacerbação dos interesses econômicos? Quantos milhões de pessoas morrem diariamente nos países onde prevalece a “livre iniciativa”? Quantos morrem nas nações que foram ocupadas em função dos interesses econômicos das nações capitalistas? Quantos, no capitalismo internacional, são excluídos e, por isso, não tem acesso as condições mais elementares de existência (comida, abrigo, assistência médica) simplesmente por não poderem pagar elas?
As ditaduras socialistas foram sanguinárias sim, sem dúvida, mas eu me pergunto se elas teriam sido mais sanguinárias do que a ditadura Pinochet no Chile, ou o governo de Stroessner no Paraguaí ou as ditaduras militares de Brasil e Argentina, todos governos que defendiam ferrenhamente o capitalismo liberal, todos com as bençãos dos EUA que “não viam” o que ocorria nos regimes que eles patrocinavam.
Hobsbawm via o mundo, um mundo injusto, cruel e desigual e defendia uma alternativa a essa existência, ao contrário de pensadores como Milton Friedman que, por pertencerem aos estratos sociais que se beneficiavam com essa desigualdade, se limitaram a descrever o que percebiam da realidade, defendendo essa visão como sendo a única possível. Com sua utopia, Hobsbawm se opunha a esse “realismo” hegemonista, não por que fosse um romântico tolo e senil, mas por que, acima de tudo, era um humanista, um pensador que se sensibilizava com os excluídos e que desejava a criação de sociedades menos cruéis, canalhas e hipócritas, nas quais o amor pelo dinheiro não fosse a única força motriz.

Vá em paz velho mestre.

Fábio  Campelo Teixeira é historiador.

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