Com a morte de Eric Hobsbawm muitos começaram a criticar o
pensamento do historiador inglês, principalmente em função da
defesa apaixonada que este fazia do socialismo e por continuar a
defendê-lo mesmo após a implosão do bloco comunista nos anos 90 do
século XX. Uma das principais críticas (acusações) que lhe
dirigem é o fato de que ele seria cego as atrocidades patrocinadas
pelos regimes socialistas, exaltando apenas as qualidades da teoria.
Muitos o chamam de cego, de fanático e, não poucos, de tolo.
Não vou
entrar no mérito de que um senhor de 95 anos, seja quem for, merecia
um tratamento mais respeitoso na ocasião de sua morte nem na questão
que um pensador do peso e do renome de Hobsbawm merecia uma crítica
mais qualificada do seu trabalho. Vou me concentrar, apenas, na
idiotice básica presente nas “críticas” dos
pseudo-historiadores mais virulentos.
Antes de
mais nada, qualquer crítica aos defensores do marxismo ou das
teorias sociais cai por terra quando o crítico utiliza os regimes
comunistas surgidos ao longo da guerra fria para afirmar que o regime
é homicida e fracassado em sua origem. Ora, qualquer aluno
secundarista sabe que o que houve na URSS, nos países do leste
europeu e em muitas repúblicas da Ásia e da África foram ditaduras
cruéis e sangrentas que se distanciaram muito dos ideais que, no
começo, as motivavam. O Estado Soviético era um aparato burocrático
titânico, dominado por uma estrutura partidária monopolista em nada
se assemelhando a um Estado socialista tal como ele havia sido
originalmente concebido por Marx, Engels, Lenin, Proudon, entre
outros. Chamar a ditadura soviética de legítima representante do
Socialismo é a mesma coisa que chamar um serial killer
de legítimo representante do povo americano ou um jogador de futebol
alcoólatra e farrista de legítimo representante do povo brasileiro.
Muito
se falou, também, da “cegueira” de Hobsbawm que se recusava a
enxergar as atrocidades provocadas pelo socialismo. A esses críticos
eu pergunto: era uma cegueira semelhante a dos liberais que se
recusam a aceitar as atrocidades patrocinadas pelo capitalismo e pela
exacerbação dos interesses econômicos? Quantos milhões de
pessoas morrem diariamente nos países onde prevalece a “livre
iniciativa”? Quantos morrem nas nações que foram ocupadas em
função dos interesses econômicos das nações capitalistas?
Quantos, no capitalismo internacional, são excluídos e, por isso,
não tem acesso as condições mais elementares de existência
(comida, abrigo, assistência médica) simplesmente por não poderem
pagar elas?
As ditaduras socialistas foram sanguinárias sim, sem dúvida, mas
eu me pergunto se elas teriam sido mais sanguinárias do que a
ditadura Pinochet no Chile, ou o governo de Stroessner
no Paraguaí ou as ditaduras militares de
Brasil e Argentina, todos governos que defendiam ferrenhamente o
capitalismo liberal, todos com as bençãos dos EUA que “não viam”
o que ocorria nos regimes que eles patrocinavam.
Hobsbawm via o mundo, um mundo injusto, cruel e desigual e defendia uma
alternativa a essa existência, ao contrário de pensadores como
Milton Friedman que, por pertencerem aos estratos sociais que se
beneficiavam com essa desigualdade, se limitaram a descrever o que
percebiam da realidade, defendendo essa visão como sendo a única
possível. Com sua utopia, Hobsbawm se opunha a esse “realismo”
hegemonista, não por que fosse um romântico tolo e senil, mas por
que, acima de tudo, era um humanista, um pensador que se
sensibilizava com os excluídos e que desejava a criação de
sociedades menos cruéis, canalhas e hipócritas, nas quais o amor
pelo dinheiro não fosse a única força motriz.
Vá
em paz velho mestre.
Fábio Campelo Teixeira é historiador.
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