Nos últimos anos, a palavra gestão virou lugar comum em qualquer análise sobre a qualidade dos serviços públicos e governantes que realizaram os chamados “choques de gestão” ou instituíram “meritocracias” foram laureados pela grande mídia, saudados como salvadores de uma estrutura arcaica, atávica e burocrática.
A
verdade, no entanto, muito mais sombria do que isso.
Gestão
e metas de produtividade são conceitos oriundos do mundo empresarial
que, a partir dos anos 90 do século XX, começaram a migrar para a
esfera pública. Tal movimento ocorreu devido a crença neoliberal de
que a administração privada deveria servir de modelo para a pública
por ser mais eficiente e, portanto, obter mais resultados. Na
verdade, a gestão por metas de produtividade não eleva,
necessariamente, a qualidade dos serviços oferecidos mas sim gera
distorções de dados e leva a ocultação de situações críticas,
dificultando a resolução dos problemas concretos dos locais onde
ela se aplica pois, para atender as metas, que em geral são irreais,
começa a haver uma pressão sobre toda estrutura para que haja a
melhoria dos índices a serem apresentados. Esse tipo de ambiente
promove a adulteração de dados e ao esgotamento (físico, mental e
psicológico) da força de trabalho, uma vez que a maior pressão por
resultados invariavelmente é posta sobre os ombros daqueles que se
encontram no patamar mais baixo da hierarquia administrativa
provocando uma situação ímpar: melhoria dos índices apresentados
e deterioração dos serviços prestados.
Historicamente
a gestão por metas de produtividade tem se mostrado catastrófica
onde foi aplicada. A falência da Eron em 2000, a bolha da internet
em 2001 e a crise mundial iniciada em 2008 são exemplos
incontestáveis que a pressão por resultados tende a ser
catastrófica mesmo no âmbito empresarial onde ela foi gestada.
Quando aplicada ao serviço público, a gestão por metas apenas
servem para escamotear problemas estruturais críticos e que demandam
de políticas sérias e investimento pesado para serem
satisfatoriamente resolvidos pois, a pressão por resultados leva a
manipulação de dados. Por mais que as diferentes instancias
governamentais se afinem no discurso de que, por exemplo, a qualidade
da educação pública oferecida no país tem aumentado ano após
ano, apresentando níveis de excelência próximo a dos países
desenvolvidos, a verdade que podemos perceber em qualquer escola
pública é que legiões de analfabetos funcionais são formados ano
após ano em instalações cada vez mais sucateadas e precarizadas.
Há uma pressão cada vez maior para que os professores deixem de dar
aula e passem, simplesmente, a preparar seus alunos para que estes
tornem-se aptos a realizar com sucesso as várias avaliações
institucionais que surgiram na última década (SAERJ, Prova Brasil,
ENAD, etc.).
Além
disso, a migração de conceitos do mundo empresarial para a esfera
pública provocam outras e mais graves distorções. Em recente
palestra no Brasil, Bárbara Bruns, economista-chefe do Banco mundial
para a educação no Caribe e na América do Sul afirmou que "A
indústria da educação é a única em que os “operários”
(professores) não tem sua performance avaliada de forma direta e
objetiva em busca de uma otimização do tempo”. Não vale a pena,
nesse momento, discutir o obvio, ou seja, que o mundo empresarial e o
ambiente escolar são espaços diferentes, formulados com propostas e
objetivos totalmente diferentes, vou me ater ao ponto básico que, ao
reduzir o processo educacional ao escopo da eficiência mecânica e
econômica, passa-se a não se admitir desvios no modelo que se
determina como sendo o ideal, uma vez que isso provoca uma perda de
produtividade inaceitável.
A
cerca de 40 anos, a pedagogia vem provando sistematicamente que o
processo de ensino-aprendizagem é mais pessoal e subjetivo do que se
desconfiava. Nesse sentido, como podemos esperar que “avaliações
objetivas” consigam dar conta de cobrir toda a multiplicidade de
formas que o processo educacional pode assumir? Eu, por exemplo, já
dei aula para alunos que, oralmente, eram capazes de desenvolver
raciocínios altamente sofisticados e complexos. Como o SAERJ ou o
ENEM podem avaliar esse aluno? Ele é incompetente simplesmente por
não dominar um tipo de linguagem formal que, arbitrariamente, se
definiu como sendo a mais importante? Visando a melhoria dos
índices, a lógica meritocrática arremessa esses alunos em
“programas de aceleração”, em sua maioria geridos por
instituições privadas, nos quais serão positivamente avaliados e
jogados para fora do sistema educacional. Os índices permanecem
altos mas gerações inteiras de jovens e adolescentes tem seu
direito constitucional a educação negado.
È
óbvio que todo aquele que presta serviço a população, seja ele um
ente público ou privado, deve ter a qualidade do serviço que presta
avaliado, o que está em questão aqui é que tipo de avaliação
será essa pois, enquanto os interesses políticos/econômicos de uma
minoria continuarem a determinar o que é melhor para o coletivo,
continuaremos a ter sociedades corruptas, violentas, excludentes e
elitistas.
Fábio Campelo Teixeira é historiador e
professor de história da Rede Estadual de Ensino do Rio de Janeiro.
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