quinta-feira, 8 de novembro de 2012

O Valor do Mérito

Por: Fábio Campelo Teixeira.

Recentemente a revista Veja publicou reportagem criticando a instituição de cotas para as universidades federais, favorecendo estudantes egressos da rede pública de ensino. O principal argumento defendido pela reportagem é que, ao aceitar estudantes cotistas na universidade, o mérito deixaria de ser o elemento preponderante para se definir o acesso ao nível superior uma vez que as cotas permitiriam que estudantes não qualificados frequentassem os cursos universitários. Esse argumento é, na melhor das hipóteses, de um elitismo excludente inadmissível em uma sociedade que se pretende justa e plural.
Imaginemos, por um breve e mágico momento, que a qualidade do ensino das escolas públicas atinja o nível de excelência que consideramos ideal e que não exista mais diferença perceptível para o ensino oferecido pelas melhores escolas privadas, isso não seria suficiente para acabar com a vantagem injusta que os filhos da elite possuem na competição pelas vagas oferecidas nas melhores instituições públicas pois a riqueza permite que estes possam se dedicar exclusivamente aos estudos além de lhes conferir acesso a um arcabouço cultural que está além do alcance dos egressos das classes populares. Dessa forma ao afirmar que os alunos cotistas não tem mérito, assume-se que o mérito é uma questão exclusivamente de poder aquisitivo (quanto mais dinheiro, maior o mérito). Além disso, uma rápida análise dos dados disponibilizados pelas universidades sobre a vida acadêmica dos alunos cotistas faz com que qualquer argumento que se baseie na falta de mérito dos cotistas caia por terra completamente pois, de acordo com o acompanhamento feito, os alunos cotistas apresentam rendimento igual ou superior ao dos alunos não-cotistas, além de terem índices de evasão menores.
O discurso questionando o mérito dos alunos cotistas está firmemente ancorado em três aspectos distintos porém complementares entre si: o receio das elites historicamente favorecidas de perderem seus privilégios, a crença que as camadas populares devem sempre ocupar uma posição de subalternidade e tradição conservadora do pensamento político brasileiro que, em última análise, faz com que os extratos explorados da população se irmanem com aqueles que os exploram. Apesar de todo o discurso político que insistentemente repete que a educação é prioridade, as políticas públicas de educação voltada para as classes populares primam pela adoção de práticas e normas que reforçam os aspecto reprodutor da escola e esvaziam seu aspecto crítico e libertário criando, geração após geração, legiões de pessoas conformistas, cínicas e sem perspectiva de futuro, satisfeitas em se manter representando os papeis que lhes foram determinados pelas oligarquias que historicamente governam esse país.
As instituir cotas nas universidades públicas não é a solução para as graves distorções socioeconômicas e políticas e é claro que é preciso criar políticas sérias para a educação básica além de se realizar vultosos investimentos na construção de escolas e na formação e qualificação de professores porém as cotas são uma medida fundamental para garantir aos grupos excluídos de nossa sociedade acesso as condições que permitirão a sua ascensão social, ajudando a superar, dessa forma, séculos de exclusão e de subalternidade.

Fábio Campelo é historiador e 
professor de história.

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