28 de Outubro de 2012, são
21:30 hrs. Quando escrevo essas linhas e o resultado da votação do
segundo turno das eleições municipais já é conhecido; em São
Paulo, nova vitória de Lula que, novamente, conseguiu alçar um de
seus ex ministros a posição de chefe do executivo. Hoje, contudo,
pretendo falar não sobre o vitorioso mas sim sobre o derrotado.
A
contragosto, José Serra apostou seu futuro político em uma eleição
da qual não queria participar exatamente por acreditar ser uma
vitória fácil para ocupar um cargo aquém de suas reais ambições
políticas. Forçado a esse caminho pela derrota iminente de seu
grupo político na guerra civil travada entre mineiros e paulistas
dentro do PSDB, Serra acreditava que sua recondução ao Edifício
Matarazzo
o colocaria de volta no tabuleiro político do próprio partido e o
habilitaria a disputar, pela terceira vez, a indicação tucana para
a disputa presidencial. Votação encerrada, Serra viu desmoronar por
completo o projeto político que acalentava desde sua gestão no
ministério da Saúde, ainda no governo FHC.
Mas,
como tudo deu tão errado?
A
Resposta é simples: Miopia política.
Serra
sempre foi motivado por uma certeza inabalável de que ele era o
único a compreender plenamente quais são os problemas do país e,
mais do que isso, conduziu sua trajetória política apegando-se
obstinadamente a ideia que era o único competente o suficiente para
realizar as reformas necessárias para assegurar o bom andamento das
políticas governamentais. Movido por tais certezas, afastou-se
perigosamente dos anseios e desejos das pessoas a quem desejava
governar, criando para si uma imagem tecnicista e elitista que o
distanciou, até mesmo, de camadas da população que historicamente
o apoiavam. Em outras palavras, faltou-lhe sensibilidade para
perceber que o país e aqueles que o habitam mudaram muito nos
últimos 12 anos.
Tal
postura individualista também, não raramente, o isolou
politicamente. Durante os anos FHC, travou um luta fratricida contra
o ministro Malam pelo destino que seria dado ao dinheiro levantado
pela dilapidação do espólio público. Derrotado, apenas pode
assistir enquanto o dinheiro das privatizações era escoado para a
construção de superávit primário e acabou ganhando, como prêmio
de consolação, sua primeira indicação para concorrer a
presidência da república. Em disputa dentro do partido, primeiro
para se firmar como principal força no estado de São Paulo e,
depois, pela liderança nacional, viu-se cada vez mais isolado
enquanto seu rival direto (Aécio Neves, estrela em ascensão da
centro-direita) estendia seus tentáculos cada vez mais
profundamente na estrutura partidária que, esperava, fosse a
sustentação de sua candidatura ao planalto em 2014.
Justiça
seja feita a José Serra, ele jamais fez jus a imagem de anticristo
que, muitas vezes, se pintou dele. Em um governo de tecnocratas
adeptos da ortodoxia econômica do FMI como foram os governos de FHC
ele foi um dos poucos a sinalizar a necessidade de investimentos
estruturais que permitissem a expansão econômica advinda com a
estabilidade monetária (Se tivesse conseguido fazer valer sua
posição, talvez o país não tivesse tido que amargar o
racionamento de energia e os sucessivos apagões ocorridos desde
então); na saúde, quebrou patentes e enfrentou a, até então,
inatacável industria farmacêutica. Apesar de seu progressismo
destro (ou, por causa dele), sua inabalável confiança em suas
próprias convicções tolas não permitiu que enxergasse o óbvio:
que a ortodoxia econômica havia mudado o país.
A
estabilidade econômica e os programas sociais implementados ao longo
dos dois governos Lula haviam elevado à classe média uma parcela
considerável da população oriunda das classes populares,
historicamente excluídas dos projetos políticos de direita e
centro-direita. Serra simplesmente não foi capaz de compreender
isso, não teve competência política para se reinventar como
candidato dessa nova classe média e, principalmente, não teve
carisma para atrair para si o eleitor de centro-esquerda, desiludido
com o PT e que tem medo das alternativas mais extremadas, como o
PSOL, por exemplo. Ele, então, se tornou o candidato ideal de uma
classe social em extinção (a antiga classe média); odiado pelos
adversários e antipático aos aliados e, o resultado final dessa
equação não poderia ser outro além da implosão de seu projeto
político, dinamitado por aquele que, em todos os aspectos, foi a sua
antítese: Lula.
O
que resta a Serra, encerrada a apuração em São Paulo? Nada além
da amarga contemplação do reino que não teve competência para
conquistar.
Fábio Campelo Teixeira é historiador.
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