sexta-feira, 2 de novembro de 2012

O Homem que queria ser Rei

Por: Fábio Campelo Teixeira.

28 de Outubro de 2012, são 21:30 hrs. Quando escrevo essas linhas e o resultado da votação do segundo turno das eleições municipais já é conhecido; em São Paulo, nova vitória de Lula que, novamente, conseguiu alçar um de seus ex ministros a posição de chefe do executivo. Hoje, contudo, pretendo falar não sobre o vitorioso mas sim sobre o derrotado.
A contragosto, José Serra apostou seu futuro político em uma eleição da qual não queria participar exatamente por acreditar ser uma vitória fácil para ocupar um cargo aquém de suas reais ambições políticas. Forçado a esse caminho pela derrota iminente de seu grupo político na guerra civil travada entre mineiros e paulistas dentro do PSDB, Serra acreditava que sua recondução ao Edifício Matarazzo o colocaria de volta no tabuleiro político do próprio partido e o habilitaria a disputar, pela terceira vez, a indicação tucana para a disputa presidencial. Votação encerrada, Serra viu desmoronar por completo o projeto político que acalentava desde sua gestão no ministério da Saúde, ainda no governo FHC.
Mas, como tudo deu tão errado?
A Resposta é simples: Miopia política.
Serra sempre foi motivado por uma certeza inabalável de que ele era o único a compreender plenamente quais são os problemas do país e, mais do que isso, conduziu sua trajetória política apegando-se obstinadamente a ideia que era o único competente o suficiente para realizar as reformas necessárias para assegurar o bom andamento das políticas governamentais. Movido por tais certezas, afastou-se perigosamente dos anseios e desejos das pessoas a quem desejava governar, criando para si uma imagem tecnicista e elitista que o distanciou, até mesmo, de camadas da população que historicamente o apoiavam. Em outras palavras, faltou-lhe sensibilidade para perceber que o país e aqueles que o habitam mudaram muito nos últimos 12 anos.
Tal postura individualista também, não raramente, o isolou politicamente. Durante os anos FHC, travou um luta fratricida contra o ministro Malam pelo destino que seria dado ao dinheiro levantado pela dilapidação do espólio público. Derrotado, apenas pode assistir enquanto o dinheiro das privatizações era escoado para a construção de superávit primário e acabou ganhando, como prêmio de consolação, sua primeira indicação para concorrer a presidência da república. Em disputa dentro do partido, primeiro para se firmar como principal força no estado de São Paulo e, depois, pela liderança nacional, viu-se cada vez mais isolado enquanto seu rival direto (Aécio Neves, estrela em ascensão da centro-direita) estendia seus tentáculos cada vez mais profundamente na estrutura partidária que, esperava, fosse a sustentação de sua candidatura ao planalto em 2014.
Justiça seja feita a José Serra, ele jamais fez jus a imagem de anticristo que, muitas vezes, se pintou dele. Em um governo de tecnocratas adeptos da ortodoxia econômica do FMI como foram os governos de FHC ele foi um dos poucos a sinalizar a necessidade de investimentos estruturais que permitissem a expansão econômica advinda com a estabilidade monetária (Se tivesse conseguido fazer valer sua posição, talvez o país não tivesse tido que amargar o racionamento de energia e os sucessivos apagões ocorridos desde então); na saúde, quebrou patentes e enfrentou a, até então, inatacável industria farmacêutica. Apesar de seu progressismo destro (ou, por causa dele), sua inabalável confiança em suas próprias convicções tolas não permitiu que enxergasse o óbvio: que a ortodoxia econômica havia mudado o país.
A estabilidade econômica e os programas sociais implementados ao longo dos dois governos Lula haviam elevado à classe média uma parcela considerável da população oriunda das classes populares, historicamente excluídas dos projetos políticos de direita e centro-direita. Serra simplesmente não foi capaz de compreender isso, não teve competência política para se reinventar como candidato dessa nova classe média e, principalmente, não teve carisma para atrair para si o eleitor de centro-esquerda, desiludido com o PT e que tem medo das alternativas mais extremadas, como o PSOL, por exemplo. Ele, então, se tornou o candidato ideal de uma classe social em extinção (a antiga classe média); odiado pelos adversários e antipático aos aliados e, o resultado final dessa equação não poderia ser outro além da implosão de seu projeto político, dinamitado por aquele que, em todos os aspectos, foi a sua antítese: Lula.
O que resta a Serra, encerrada a apuração em São Paulo? Nada além da amarga contemplação do reino que não teve competência para conquistar.

Fábio Campelo Teixeira é historiador.

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