terça-feira, 13 de novembro de 2012

Valores? Que valores? De quem?

Por: Fabio Campelo Teixeira.


“As famílias hoje estão desestruturadas!”, “Os jovens não tem mais respeito por ninguém!”, “Todos são desonestos hoje em dia”. Essas e muitas outras frases com mesmo teor que ouvimos com cada vez mais frequência, tanto na grande mídia quanto em conversas particulares demonstram uma percepção de certas camadas da sociedade de que, atualmente, vivemos uma grave crise nos valores que orientam e estruturam a nossa sociedade. Mediante tal quadro, creio que é pertinente fazermos duas perguntas fundamentais e, no entanto, negligenciadas nessa discussão: que valores são esses que estão em crise e de quem são esses valores?
O conjunto de valores que o senso comum firmou como sendo o padrão nas sociedades ocidentais contemporâneas começou a surgir no século XV com a falência da sociedade feudal europeia e o início da ascensão da  burguesia enquanto classe social predominante nas civilizações ocidentais. Não podendo se apoiar na hereditariedade como elemento de distinção social (como a nobreza) nem no monopólio sobre a produção cultural/intelectual (como o clero), os burgueses se apoiaram em seu incomensurável poderio econômico e no vasto potencial para amplia-lo, começando a construir um sistema de valores baseado no princípio da acumulação de capitais. Assim sendo, a ética burguesa baseia-se, fundamentalmente, em um cruento, brutal e eficiente princípio: você vale o tanto que você possui.
A empresa colonial foi fundamental tanto para o fortalecimento burguês quanto para a proliferação de sua visão de mundo e modo de vida. As colônias no “novo mundo”, principalmente os assentamentos protestantes na América do Norte, serviram como extensos laboratórios sociais nos quais os burgueses puderam refinar e aprimorar o seu dogma até que, no século XVIII, ele já estava maduro e a burguesia forte o suficiente para se impor a nobreza absolutista, tomando de assalto o poder no ocidente através de uma série de revoluções bem sucedidas. As revoluções burguesas, mais do que consolidar o poder político/econômico da burguesia, serviram para validar e fortalecer seu sistema de valores e visões de mundo que, pouco a pouco tornaram-se hegemônicas dentro das sociedades ocidentais que passaram, cada vez mais, a propagar a acumulação material como virtualmente única meta social válida. Hoje, mais do que nunca, nossa posição social é mensurada por duas medidas chave: capacidade de consumo e potencial de acumulação de capital, sendo essa medida de tal maneira poderosa que, até mesmo o acesso a justiça e aos serviços públicos básicos se atrelam a ela (é preciso ter dinheiro para fazer valer seus direitos).
Temos, então, o cerne da presente questão: O sistema de valores burgueses, baseado exclusivamente na acumulação material, trás, em si, as sementes de sua própria implosão pois, sendo ela, a acumulação de capitais, o único objetivo válido, quaisquer meios tornam-se justificáveis para se obtê-la.
Em um mundo dominado pelo binômio riqueza/consumo, os dispositivos legais flexibilizam-se em nome dos imperativos econômicos e as convenções sociais tornam-se ambíguas e contraditórias quando o que se está em jogo são os interesses monetários. Em outras palavras, a sociedade que se horroriza com a delinquência juvenil dos filhos das classes abastadas é composta por elementos que não tem pruridos em se utilizar de uma posição de poder para obter vantagens pessoais e aqueles que criticam as classes populares por se esforçarem para ostentar uma aparência de uma prosperidade que não tem, são os mesmos que constroem civilizações devotadas a um único deus: o consumo.
A lógica da acumulação/consumo está presente em todos os aspectos da vida social: quantos de nós não compramos produtos de qualidade notadamente inferior simplesmente por serem “de marca”? Quantas vezes cedemos as ganas consumistas de nossos filhos, vencidos pelo o argumento de que apenas ele “não tem tal produto”? Quantos de nós estimulamos nossos filhos a seguir carreiras para as quais possuem vocação mesmo estas não sendo bem remuneradas? Quantas vezes medimos realização profissional por outro índice que não o extrato da conta bancária ou  o valor líquido do contracheque? Quantas vezes nos indignamos com a corrupção mas oferecemos a “cervejinha” para nos livrarmos de embaraços legais?
Não sou hipócrita. O dinheiro é um elemento importante em nossas vidas e uma boa remuneração é fundamental para podermos ter vidas confortáveis e realizadoras porém, tornar a acumulação fiduciária a mola mestra que conduz nossas vidas não é apenas um equívoco, é doentio.

Fabio Campelo  Teixeira é historiador.

Um comentário:

  1. Concordo com você, verborrágico amigo. Somos uma sociedade de consumo infelizmente. E o fato mais bizarro desta condição e quem não consome fica a margem desta sociedade (marginalizado). Muitos jovens entram para o crime (ou outras roubadas) para poder consumir. Ou prostituem seus talentos pessoais e vocações por carreiras mais rentáveis. Ter tênis e roupas de marca passa ser um veiculo socializador. A mídia dita o que usar como você deve usar, e o pior, como você deve ser. O mais triste disso tudo é que eu escrevo isso porque vi no meu Smartphone a sua postagem, estou no trabalho com tênis e camisa de marca, porque se eu estivesse em casa provavelmente não comentaria nada estaria vendo TV a cabo, algo que baixei da internet ou o mas provável jogando PS3. Porque afinal de contas nos não somos marginais não é verdade rsrs

    Saudações Bizarras

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